sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Adaptabilidade

Já passei por aqui várias vezes mas a indisponibilidade de tempo para me sentar e escrever direito (pensando e repensando como gosto de fazer), e a imediatez das redes sociais (who am I kidding, do Facebook) faz com que este blogue esteja perto de uma cidade fantasma que visito para verificar pormenores da evolução da moyinha quando a cabeça me falha (que, diga se de passagem, é já bastantes vezes). Sei que devia estar a fazer o mesmo para as gémeas - e prometo um post mais completo a celebrar o seu segundo aniversário para breve, - e que me vou arrepender amargamente um dia de não o ter feito, mas sinto que estou a viver mais e a relatar menos nesta 2ª maternidade que vale por 3.

E já divaguei.
O que me traz a esta hora insana aqui é a adaptabilidade. MAis concretamente a importÂncia da nossa capacidade de adaptar e de ler a individualidade de cada bebé.
Vamos ser francos, a maternidade de um é cheia de utopias e princípios, mas quando se tem que lidar com dois, e neste caso com mais dois bebés vai (quase) toda a teoria pelo cano... Para mim, duas coisas tornaram-se fundamentais: o estabelecer de uma rotina (não rígida, mas ainda assim, reconhecível) e o não criar muitas expectativas quanto aos objectivos a cumprir em cada dia. Principalmente, levar um dia de cada vez. Não se fez hoje? Amanhã também é dia. Isto foi um excercício muito interessante para aprender a priorizar as tarefas: "Ok, deixa cá ver o que tem MESMO que ser tratado hoje... tudo o resto pode ficar para depois".
E pronto, já divaguei novamente...

O que eu queria mesmo abordar é o tema das noites, a.k.a., amamentação e sono.
Sim, Elas já tÊm quase 2 anos (!!!) e ainda mamam. Geralmente a pedido. Embora eu já lhes diga que não ocasionalmente pois já compreendem e já têm alternativas alimentares e de conforto.
Mas como sempre fizemos co-cama (co-sleeping na mesma cama, i.e. com um berço ou colchão ao lado para aumentar a área útil dormível) elas ainda não dormiam noites completas (i.e., períodos de pelo menos 6h seguidas) - pelo menos uma delas não o fazia, pois a Inês dá-me ideia que já o fez várias vezes e até faria mais não fosse ela acordar com o barulho ou movimento da Rosa.

Gosto muito de lhes dar de mamar e geralmente é-me muito conveniente - ter um lanche e conforto sempre ao pé - mas diga-se de passagem, quando isso interfere com o nosso descanso nocturno, perde a graça muito rapidamente. Tal como com a moyinha, também com as gemeas não tive a sorte de conseguir amamentar a dormir. O primeiro ano porque por mais cansada que eu estivesse, elas acordavam para mamar aos gritos, literalmente, e acordavam-me. depois é muito certa a história das mães estarem mais disponiveis para o contacto durante a noite e as crianças compensam assim a falta de atenção diurna, e também o facto da prolactina ser mais elevada de noite, mas se tiverem dois bebés a acordar pelo menos 2x durante a noite para mamarem ~15-20min... mais a muda da fralda enquanto estão só a mama... façam as contas...
Há praticamente 3 anos que não durmo 6h seguidas (porque também me fartava de acordar com desconfortos durante a gravidez delas), e isso em alguns países já é considerado uma forma de tortura.

Com a Moyinha, iniciei o desmame nocturno por volta dos 22 meses, altura em que ela me deu um MÊS a acordar de hora a hora TODOS os dias. Ela andava cansada, irritada e com olheiras e eu nem se fala mas isso podem ler aqui no blog noutro post. Com estas tentei começar aos 18 meses mas não deu em nada pois o meu marido andava a trabalhar fora, entretanto mudámos de casa e de país. O desmame nocturno faz-se melhor em equipa (porque se for eu a atendê-las quando choram de noite elas exasperam porque não compreendem porque não lhes dou mama) e geralmente deve ser feito em momentos em que o bebé esteja estável e não durante uma adaptação a uma situação nova...
Assim, ainda tentei algumas vezes mas era muito difícil e acabava por ceder. Com o verão e o cansaço das actividades do dia, tornou-se mais fácil elas dormirem melhor de noite. Na época da praia penso que até consegui que dormissem uma noite sem acordarem! Mas depois voltaram ao mesmo: 1 a 2x/noite. Então decidi fazer outra coisa diferente: passá-las para o quarto com a irmã mais velha.

Já com a moyinha (com certeza também está aqui no blogue) ela só mudou para o seu quarto quando quis, que foi por volta dos 2 anos e meio - 3 anos, embora as madrugadas ainda fossem passadas na nossa cama. Mas também notei que depois do desmame nocturno e da passagem para o seu quarto passou a dormir muito melhor...
Nunca pensaria em pô-la no quarto sozinha sem que ela quisesse ou demonstrasse capacidade para o fazer. Já estas pinipons, não tÊm maturidade nenhuma para tal mas, como são duas, e estão no quarto com a mana, não se sentem sozinhas e acham divertido. Tentei isso umas noites durante o verão e correu bem. Agora no final da epoca estival, ao regressarmos a casa, mudei mesmo o berço delas para o quarto da mana. Estupidamente, fi-lo à frente delas e a coisa não correu muito bem. A InÊs ficou muito irritada e desesperada, pois pensava que estavamos a desmanchar a sua cama, embora eu lhe explicasse que era para ela dormir. Depois percebeu que era para o quarto da mana e achou que era para a Joana e continuou no pranto... Só dizia: "Meu! Nené!" Mas depois lá percebeu que era para elas dormirem ali... A primeira noite foi a excitação total que deu azo ao caos... Já estavam cansadas, já era tarde, ainda lhes dei mama mas depois não queriam largar a mama e deitar-se... Fiz massagens nos pés com oleo de coco com OE de alfazema, como de costume, cantei uma canção, acho que até li uma história, mas depois continuavam histéricas. Foram 2h para as adormecer. (Mas quando não estão cansadas, isso é o normal). Na noite seguinte, fiz as rotinas de sono e depois dei mama mas saí do quarto antes de adormecerem e o pai ficou com elas... choraram, guincharam, chamaram por mim... A certa altura não resisti e entrei e embalei a mais sentida - a Inês - até adormecer. Foram 5min com ela no meu colo caladinha mas a soluçar... Não gostei nada daquilo mas o pai tinha insistido. Na noite seguinte decidi fazer as rotinas e dar mama e depois, como continuavam acordadas e a brincar, embora deitadas, decidi sair do quarto discretamente. Levantei-me e elas ficaram com a mana a dar ordens de mãe: deita-te, vou por a musica, vou ligar a luz, vou buscar água para beberem. Mas passados 20minutos estava tudo em silêncio e estava tudo a dormir. Gostava de dizer que foi a noite toda, mas como podem ver pelo post, não foi: acordaram perto das 4h para mamar. Podia dar-lhes um biberon de papa rala mas, a experiência das noites anteriores não foi muito boa: embora gostem da papa de dia, de noite atiram com o biberon para longe. DEi de mamar e deitei-as novamente no berço. A Inês estava acordada e dei-lhe um beijo dizendo que ia só lavar os dentes e já voltava. Ainda demorei um bocadinho na WC e depois ao sair olhei para a porta do quarto delas fechada: "entro ou não entro?" Silêncio no quarto. "Se ela já tiver adormecido, posso acordá-la. Se estiver acordada, vai querer que eu lhe pegue e chorar se eu não o fizer"... "No entanto, se ela estiver acordada e vir que não apareço como lhe prometi, é capaz de começar a chorar também". Criei coragem e abri a porta: cheguei perto do berço e lá estava ela, deitada mas de olhão aberto. Fez um grande sorriso quando me viu! Dei-lhe dois beijos na testa, passei-lhe um boneco que ela atirou para fora do berço e depois outro que prontamente agarrou e nisto deu-me outro sorriso, virou-se para o lado e fechou os olhos. Aconcheguei-a com a manta e beijei-a novamente na testa. E saí, de coração cheio.
Adoro dormir com elas, ouvir a sua respiração, sentir o seu cheiro, o seu calor, mas sei que o desmame nocturno vai ser muito mais fácil com elas a dormir longe do cheiro do meu leitinho.

E a história seria idílica se terminasse aqui, mas passados 10min acordou novamente a Rosa e pediu para mamar...
Keep it real, keep it simple... Vai haver dias (e noites) bons e outros menos bons. Vai haver avanços e retrocessos. Mas nada é mais certo do que o passar do tempo e este tempo também irá passar, mais rápido do que pensamos, e irei ter saudades da altura em que mediam metade de mim e precisavam fundamentalmente mim para o seu conforto...

sábado, 5 de março de 2016

7 anos... Uma vida!

Há 7 anos atrás estávamos nestes preparos: com a minha doula/fotógrafa, a minha parteira vigilante, dois gatos curiosos e um marido entusiasta. As contracções apertavam, mas cada uma me deixava mais próxima de ti, minha filha. E tu chegaste, cheia de vida e de Amor para dar e partilhar.
Nestes 7 anos já aprendi tanto contigo filha... Nem sempre consigo ajudar-te ou perceber-te (especialmente agora, que estás a entrar na idade em que percebes que podes ter a tua opinião e fazer o que bem entenderes sem dar cavaco a ninguém), mas sempre que as situações o exigem, deslumbras-me com a tua perspicácia, a tua percepção das coisas, a tua bondade e persistência.
Continuas como sempre, muito sociável e muito feminina, já consegues ler e fazer contas, e atar os teus sapatos. Não és muito amiga de grandes arrumações e tens uma (ou várias!!) costela do teu pai quando se trata de prioritizar tarefas ou de ser pontual. Nem sempre consigo manter a calma nestes momentos... Pois ser pontual foi das primeiras coisas que os meus pais me incutiram como sendo o mais importante para manter uma postura de pessoa confiante e confiável.
Desde que as tuas irmãs nasceram, nem sempre consigo dar-te a atenção que mereces. E por vezes tu queixas-te disso. Mas ainda assim, enches-te de amor e paciência com elas, brincas com elas, dás-lhes de comer, adormece-las...
Isto tudo para dizer que não sou a mãe que mereces, mas todos os dias tento ser um bocadinho melhor. Que possas estar sempre na minha vida, minha gota de luz num oceano de Amor! 

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

1º ano de Associação Portuguesa Pelos Direitos da Mulher na Gravidez e no Parto

Isto de ter um blogue e dizer umas patacoadas pelo facebook é muito bonito, mas poder fazer algo concreto para mudar (para melhor) a maternidade em Portugal sabe muito melhor.
E foi já há um ano que fui convidada, e aceitei orgulhosa, para fazer parte de um grupo de mulheres fantásticas (e agora também homens :) ) que vêm de diferentes bastidores e que são apaixonadas pela maternidade e por garantir que cada mulher seja parte activa nas decisões sobre a sua gravidez e o seu parto.
Este ano passou num instante e conseguimos muito mais do que poderíamos imaginar. E muito mais está para vir. Partilho aqui os principais momentos do ano que passou e convido-vos a juntarem-se à APDMGP, apoiando ou divulgando a associação:

http://www.associacaogravidezeparto.pt/1-ano-de-apdmgp/


domingo, 12 de abril de 2015

Opções de parto em Portugal (Finalmente!!!)

E eis que a Páscoa de 2015 trouxe alvíssaras de Aleluia às Mulheres Portuguesas.
Depois de terem fechado a hipótese de dilatar ou parir na água no Hospital Público de Setúbal em Julho de 2014, o cenário estava (novamente) francamente mais sombrio...


Mas eis que uns meses depois desta notícia, surge agora a primeira Casa de Partos não-secreta!!! Que também providencia apoio a parto domiciliar se for necessário. Finalmente!! Graças às estrelinhas todas que dois dos principais e excelentes profissionais do atendimento à grávida e ao parto domiciliar se resolveram juntar para tornar este sonho em realidade!
Chama-se Ninho de Cegonha e fica no Barreiro (Vila Nova de Poiares, a 40Km de Coimbra). O Enfº Especialista em Saúde Materna e Obstétrica, António Ferreira, e a Parteira holandesa radicada em Portugal há vários anos, Mary Zwart, uniram-se para dar vida a este sonho. Uma casa aberta ao parto fisiológico e disponível a encontros de temáticas relacionadas com o ciclo feminino.
Em breve actualizarei o post com mais informações.

Hoje as opções para nascer em Portugal são:

- no domicílio, de forma não-assistida ou assistida por um profissional certificado (mas não regulamentado), como um(a) Enfermeiro(a) Especialista ou Parteira(o). Há vários profissionais que o fazem, de forma individual ou já em equipas de 2. Os preços variam, podendo ir de c. de 500€ a 1.500€.

- numa Casa de Partos: um local privado, dirigido por um ou mais profissionais de saúde, mas onde o parto fisiológico em gravidezes de baixo risco impera. Geralmente há um protocolo de transferência para hospital em caso de complicações. Em Portugal actualmente há duas casas assim, uma clínica particular, em Cascais, dirigida por uma obstetra; e a que divulguei no início do post, dirigida por dois enfermeiros-parteiros. Ainda não sei preços de qualquer uma destas casas.

- no Hospital: em hospital público, sendo que o Estado Português suporta os custos do processo, do pessoal qualificado e do internamento; ou em hospital privado, onde a grávida suporta os custos total ou parcialmente, se tiver seguro de saúde correspondente. Um hospital privado pode cobrar por um parto desde 1.500 a 6.000€, dependendo das intervenções decorridas. A grande diferença, fora os custos, de uns para os outros é que nos públicos é raro o pai (ou acompanhante) poder assistir ao parto (mesmo que esteja presente durante a dilatação) ou pernoitar com a família. Geralmente nos privados a mulher tem um quarto individual ou duplo e é habitualmente tratada com maior deferência que nos públicos. Infelizmente, há maior registo de partos mais interventivos nos hospitais privados. Os primeiros cuidados ao bebé também são mais apertados em hospital, onde muitos procedimentos são efectuados rotineiramente, mesmo não havendo necessidade de submeter o recém-nascido aos mesmos. Por estas razões muitas mulheres agora elaboram e entregam os seus Planos de Parto (o que é isto?) durante o seu seguimento ou ao serem admitidas em trabalho de parto, por forma a que os profisionais de saúde possam inteirar-se das suas preferências e evitar intervenções rotineiras "só porque sim".

O parto na água agora só está disponível no domicílio, nas Casas de Parto e em 3 hospitais privados da região do Porto, o da Ordem da Lapa, o da Boa Nova e o de Alfena (os dois primeiros têm piscina de parto; mas em todos fica a cargo da grávida levar os profissionais especializados neste tipo de partos). Há uma equipa de enfermeiros do Espaço Gimnográvida (também no Porto) que ao que parece, faculta este serviço. Mas também não sei dizer preços por enquanto.

Opcionalmente, e independentemente do local onde for o parto, um casal pode sempre optar por contratar uma Doula, uma pessoa que acompanha o casal durante a gravidez, e/ou parto e/ou pós-parto, apoiando a grávida (e o pai) fisica e/ou emocionalmente e através de informação das mais recentes evidências científicas publicadas. Há várias entidades que formam estas pessoas em Portugal e no estrangeiro. Por cá, há Doulas independentes e as Doulas associadas, que podem vir de 3 origens: a Rede Portuguesa de Doulas, a Associação de Doulas de Portugal e a Bionascimento.
Neste momento está-se a tentar que a Doula seja mais aceite nos partos hospitalares, em que não é bem-vista pelos outros profissionais que aí trabalham por estarem erradamente convencidos que a Doula interferirá com o decorrer do parto. A Doula não interfere ou realiza actos médicos, apenas acompanha, apoia e fundamenta os desejos da grávida/casal durante todo o seguimento. É na realidade, uma mais-valia já academicamente comprovada, que pode fazer a ponte entre a grávida/casal e os profissionais de saúde que a/os assistem, pois já privou mais tempo com eles e já conhece as suas preferências e sinais. O custo de uma Doula durante a gravidez, parto e pós-parto pode variar entre os 200 e os 600€.

Todas estas opções são de livre escolha por parte da grávida/casal e deveriam ser oferecidas e comparticipadas de igual modo para que a decisão coubesse à mulher. É pena que as seguradoras ainda fechem os olhos às evidências e aos exemplos flagrantes de países mais desenvolvidos, e continuem sem ter planos de cobertura para partos não-hospitalares... seria um grande avanço para promover formas mais fisiológicas de parir - e tão seguras quanto as outras,- e daria oportunidade económica a quem quer recorrer a elas, já para não falar que sairia mais vantajoso para as seguradoras, visto que um parto fisiológico tem muito menos intervenções e por isso menos custos, que um outro dito natural porém medicalizado...

quarta-feira, 11 de março de 2015

Parto na água: as evidências

http://evidencebasedbirth.com/evidencias-cientificas-para-o-parto-na-agua/

Na semana passada o Movimento Mães d'Água foi à AR entregar a petição com mais de 4000 assinaturas que pretende restabelecer a possibilidade de partos na água no Hospital de Setúbal e abrir essa opção a outros hospitais públicos. 

terça-feira, 3 de março de 2015

6 meses de maminha!

Houve vezes que parecia impossível, outras em que foi difícil, outras ainda em que era só doçura, e muitas em que foi uma salvação. Leite materno. Palavras para quê? hoje, com 6 meses e 5900g e 6100g, são bebés felizes com a sua mama. Agora é que vai começar o desafio de as pôr a comer :)
Antes era canja! ou melhor, mama!



sábado, 28 de fevereiro de 2015

Relato de parto das gémeas - celebrando 6 meses cá fora!


Duas estrelas, dois arco-íris. Depois da experiência fantástica que tivemos da nossa primeira gravidez e parto, o meu marido, nem passado um mês perguntou-me quando poderíamos repetir. Não tinha sido fácil mas foi tudo muito natural, muito intuitivo, muito fisiológico. Tínhamo-nos informado bem, tínhamos tido uma doula, um médico, uma parteira e muitas conselheiras de aleitamento. Houve stresses no caminho da parentalidade, mas fomos superando tudo. Bem se diz que só não há remédio para uma coisa nesta vida. E na altura, mal sabia eu que ia aprender essa lição não uma, mas duas vezes.

Positivo. Com a nossa primogénita com 30 meses feitos, senti-me grávida de novo. Fiz o teste no dia de anos do meu marido e embrulhei-o para lho dar de presente, à frente de toda a família. Foi um momento muito emocional, partilhado, e surpreendendo todos. Nada fazia adivinhar problemas, tudo corria bem. Até eu ter apanhado uma gripe da qual não me conseguia livrar. Várias idas à urgência, vários sustos até à eco das 12 semanas, em que o som que eu mais queria ouvir deu lugar ao silêncio. Foi um choque muito grande, e só essa história encheria várias páginas.

Quando caímos, temos que nos levantar e pela nossa filha, foi isso que fizemos. Passado 6 meses voltei a sentir-me grávida. Ainda meio atordoada, a fazer exames para tentar perceber o que tinha acontecido mas a rezar para que tivesse sido um azar único que tantas vezes (mais do que imaginamos) acontece. Foi uma gravidez sobressaltada em que ninguém dava certezas de nada. E apesar de estar a correr tudo bem, um pequeno sangramento novamente às 12 semanas levou-me à urgência, e a confirmar que o sonho estava novamente desfeito. Tirámos um ano para pensar. Para reagrupar, para perceber o que queríamos.

Anti-beta-2-glicoproteína1. Aprendi este nome de trás para a frente. Afinal era ele o culpado de o meu corpo rejeitar os meus bebés. Porque tinha corrido bem e agora corria mal? Não sei. Mas corria. E agora era tentar de novo ad hoc ou fazer algo. Injecções? Comprimidos? Era tudo o que a minha primeira gravidez não tinha sido ou tido. Tudo o que eu sempre tinha feito para evitar. Tudo o que envolveria comprometer a liberdade de um parto não-interventivo que eu sempre tinha sonhado em repetir. Procurei alternativas mas no final, ninguém punha as mãos no fogo para evitar a medicação na gravidez. A vontade de sermos pais foi mais forte e tive que aprender a aceitar o que me custava e a lutar pelo que sabia, ainda assim, ser possível. E foi assim, com a primogénita a fazer os 5 anos, que dei por mim novamente grávida. Sabia que ia ser complicado, sabia que ia ter que tomar decisões mas foi às 6 semanas que tive um ataque de riso no gabinete da ecografista: não era uma bolsa, eram duas. Ambas cheias, ambas com o “pisca-pisca” e a música maravilhosa de dois galopes em sintonia. Aí começaram as preocupações, a dobrar, pois tudo era diferente: foi uma gravidez muito intensa, muito vivida mas muito sofrida também pois lutei para encontrar um cenário que me respeitasse e às bebés na hora do parto. Por ser uma gravidez medicada, por ser uma gravidez após não uma, mas duas perdas, por ser uma gravidez gemelar basicamente era automaticamente colocada em alto risco por todos que me viam.

Mal-me-quer, bem-me-quer... Até ao final acreditei no sonho de um parto vaginal, respeitado e com a minha equipa (marido e doula). Procurei os locais mais adequados e fiz vários planos consoante o que sucedesse. O que sucedeu foi que a primeira gémea estava sentada e apesar dos exercícios e terapias, depois das 33 semanas não virou mais. A 2ª gémea mexia-se mais mas estava transversa. Desde as 32 semanas que eu estava de repouso moderado porque o meu colo tinha encurtado: estava com 18 mm de espessura e a começar a afunilar (algo que eu descobri depois que é bem normal em gravidezes gemelares devido ao peso dos bebés). Quiseram-me internar e dar as injecções para o amadurecimento dos pulmões das bebés mas como não havia outros sinais de trabalho de parto eminente, eu recusei. Depois das 35 semanas saí do repouso pois já era seguro nascerem sem as injecções e elas já tinham mais de 2,5 kg cada uma.


A única condição imposta por todos os que me assistissem para eu poder tentar o parto vaginal era que a bebé 1 estivesse cefálica. Visto que ninguém me apoiava num parto pélvico da 1ª gémea, marcaram-me a cesariana na maternidade onde estava a ser seguida, para o final das 37 semanas, pois a indicação médica é que o risco de morte fetal aumenta depois das 38 semanas em gémeos dicoriónicos e diamnióticos. Eu ainda estava confiante que elas ainda poderiam virar ou pelo menos que eu ainda poderia entrar em trabalho de parto espontaneamente e depois seguir para cesariana se fosse caso disso. Afinal, desde as 32 semanas que eu estava em risco de parto prematuro, mas até as contrações de Braxton-Hicks frequentes tinham diminuído depois das 36 semanas. Como as bebés estavam bem, os líquidos amnióticos estavam bem, e porque sendo no público o meu marido ou a minha doula seriam impedidos de estar comigo no bloco de partos, decidimos mudar de médico e esperar o parto espontâneo… Porém no final desse dia, os meus pés tinham inchado, o meu marido estava nervoso e nós sentíamo-nos pressionados pela situação… Como eu estava a tomar injecções diárias de heparina, havia a pressão adicional de não poder levar uma epidural até 12h depois da toma da injecção. Se a 1ª bebé estivesse cefálica, não estaria minimamente preocupada pois eu já tinha passado por um parto sem anestesias. Mas visto que a probabilidade de eu ser submetida a uma cesarina era bastante elevada (havia só 3% de probabilidade de a bebé ainda virar), se eu entrasse em trabalho de parto espontâneo durante essas 12h, na impossibilidade de levar uma epidural, teria que ser submetida a uma anestesia geral, com tudo o que isso implicava para mim e para as bebés.


Era para ontem, mas afinal é para amanhã. Então passei essa semana a tomar a injecção às 6 da manhã, rezando para que nada acontecesse até às 18h, e depois dessa hora, andando e agachando-me e comendo picante ou bebendo chá de canela e folhas de framboeseira para tentar acelerar as coisas (não era de todo um cenário relaxante). O obstetra privado que escolhemos apoiava o início de trabalho de parto espontâneo. Ele sentia-se confortável em esperar até às 39 semanas mas não muito mais tempo. Também me aconselhou a não interromper a heparina nessa semana para aguardar pelo trabalho de parto (algo que poderia evitar a questão da epidural). Mas infelizmente ele ia estar fora da cidade na semana seguinte e começou a pressionar para marcarmos o dia. Que quanto mais esperássemos, maior seria a probabilidade de eu precisar de uma anestesia geral (se dentro daquelas horas depois da injecção) ou até de uma cesariana de emergência, em que o nosso plano de parto poderia não ser todo respeitado.
Às 38 semanas visitámos o hospital e decidimos marcar para daí a 4 dias mas mais uma vez, o obstetra disse que esse dia não lhe dava jeito e perguntou se não poderia ser no dia seguinte… Eu não estava preparada para aquilo e fiquei em choque por uns momentos mas o meu marido estava tão ansioso com a situação que aceitou de imediato dizendo que por uns dias não faria diferença, que já tínhamos aguentado até às 38 semanas e eu não tive mais forças para os contrariar. 

Então combinámos de nos encontrarmos no dia seguinte sendo que eu não tomaria mais heparina para poder levar a epidural. Fomos passar a tarde a uma piscina e aproveitar os últimos momentos de barriga e terminámos o dia com uma bonita cerimónia de despedida facilitada pela nossa Doula, Sara Vale, em que nos despedimos desta gravidez e acolhemos os novos bebés. Bebemos o condimentado chá da Naoli Vinaver (nham!!!) e durante a madrugada cheguei mesmo a ter algumas contrações fortes. Nessa noite pusemos tudo a jeito, visualizei o processo na minha cabeça para tranquilizar os bebés que tudo estava bem, avisámos os avós e arranjámos quem ficasse com a nossa mais velha enquanto estivéssemos no hospital.

Dia P. De manhã fomos para o hospital e eu estava algo nervosa porque não tinha a certeza de estar a fazer o correcto.
A nossa Doula já lá estava e foi quem contribuiu para me manter centrada e calma. Cheguei a brincar diversas vezes com o facto de me querer vir embora (especialmente quando me disseram que não iam ter quartos individuais, porque era uma das minhas “condições absolutas” para aceitar a marcação, visto que só assim o meu marido poderia pernoitar connosco. Mais tarde eu fui mudada para um quarto individual e ele pôde ficar as 2 noites que estivemos internadas). Demorámos quase 2 horas a conversar com a equipa hospitalar que estaria envolvida no nascimento e todos foram bastante receptivos, embora cépticos sobre qual a razão de tantas “condições”. Mas como o meu obstetra já tinha acedido a quase tudo previamente, eles aceitaram tudo de bom grado também. Eu fui então levada para a sala do bloco de partos por volta das 11h30 para ser preparada para a epidural. A anestesista foi muito simpática e pôs-me bem à-vontade. No início ela estava um pouco incomodada com os meus pedidos porque sentia que eu estava a colocar em causa os seus conhecimentos. Mas assim que ela percebeu que eu estava a pedir e não a exigir, ela mudou completamente de atitude. Eu pude ficar com ambos os braços livres (sem ser amarrados) e a epidural pegou logo. O meu marido entrou então na sala e a nossa doula ficou na sala de observação dos recém-nascidos mesmo ali ao lado, mas viu todo o procedimento através do vidro da porta (e eu a ela). Penso que esta foi a primeira vez naquele hospital que uma doula, para além do pai, pôde estar presente numa cirurgia de cesariana. A anestesista e o obstetra foram-me explicando os procedimentos (tal como eu tinha pedido) e uma vez extraída a bebé A, o médico disse que era uma menina (nós até aí não sabíamos o sexo dos bebés), baixaram o pano para que eu a pudesse ver e puseram-na perto da minha cara. Levaram-na depois para a sala de observação e o meu marido foi atrás.

Ele pôde fazer o pele-com-pele com ela depois das primeiras observações (Apgar 9-10-10) e as únicas intervenções foram a injeção da vitamina K (que eu tinha concordado dar-lhes por causa do risco de hemorragias internas pela exposição continuada a anticoagulantes durante a gravidez) e a aspiração nasal. Eu tinha pedido para esta última só ser efetuada se necessária: ela acabou por ser feita pois ambas as bebés estavam a fazer bolhinhas com a boca e recearam que elas tivessem inalado líquido amniótico e estivessem aflitas. Entretanto, a 2ª gémea foi retirada e foi-me mostrada e levada para a sala de observação para que o pai pudesse fazer o pele-com-pele (Apgar 8-10-10). A única coisa no procedimento que não foi como eu tinha pedido foi o clampeamento do cordão: na confusão, o pai acabou por se esquecer de pedir para ser ele a cortar o cordão, e na conversa que tivemos antes da cirurgia o médico confirmou-me que não poderia aguardar o corte pois teria que retirar a 2ª gémea. Durante os 4 primeiros meses, a nossa primeira gémea teve a tez mais branca que a 2ª, mais rosadinha, possivelmente devido a esse factor...

Depois de elas terem sido secas (o vérnix foi mantido, como eu tinha pedido) e vestidas, trouxeram-mas para o bloco de partos onde eu ainda estava a ser cosida, e puseram-nas sobre o meu peito, onde eu as pude cheirar e beijar e tivemos tempo para uma pequena sessão de fotografias/filme com o meu marido, cortesia da anestesista que nos filmou.





Também a meu pedido, as placentas foram-me mostradas (estavam fundidas e foi talvez por isso que a 1ª bebé não conseguiu dar a volta) e guardadas a meu pedido para eu as poder levar para casa. 
A cirurgia foi um sucesso, e eu e as bebés estávamos tão bem que nos levaram de imediato para o quarto. A primeira coisa que fizemos foi despi-las e colocá-las diretamente no meu peito. Apesar de terem estado as primeiras horas meio dorminhocas, pegaram muito bem na mama. A mana foi trazida umas horas depois para conhecer as bebés e pôde ficar até à noite.


Tudo somado, sinto que foi uma experiência calma e respeitada, em que todos tentaram cumprir os nossos desejos. É pena que tenha que ter recorrido a um hospital privado para o conseguir. Se tivesse sido num hospital público ou numa cesariana de emergência, não sei se conseguiria ter tido a mesma experiência.
Durante a nossa estadia de 2 dias, o pai pôde ficar sempre connosco e os nossos desejos foram respeitados. Tivemos todas alta ao 3º dia :)

Agradeço novamente ao Universo, que me permitiu ser mãe mais uma vez.
Às minhas meninas arco-íris, por me terem mostrado que nunca há só um caminho e por vezes temos que abrir mão do nosso escolhido.
À minha filha, por nunca ter desistido de deixar de ser filha única e ter sido o meu porto de abrigo durante as minhas perdas e a minha força motriz em todos os momentos.
Ao meu marido, que é um pai-galinha incansável e que me apoiou durante toda a gravidez.
Às minhas doulas desta gravidez, Sara Vale e Cátia Maciel, por me ouvirem e acarinharem, e desembrulharem os nós na minha cabeça e me ajudarem a procurar as respostas às minhas questões. 
À equipa e ao obstetra que me operou. Apesar de não partilhar das nossas opiniões, soube distanciar-se o suficiente para as respeitar de forma a que o parto fosse nosso. São precisos mais profissionais assim em Portugal, actualizados e abertos a servir as mulheres e os seus bebés.
Às minhas ancestrais, em especial à Avó Rosa, que sempre acreditou que um dia eu voltaria a estar “acompanhada”, e que mesmo depois de partir lá deitou uns “pozinhos” para nos ajudar.
A todos os que se cruzaram connosco e contribuíram para o sucesso desta história, nem que fosse com um simples sorriso.

(Fotos iniciais com montagem por cortesia de Kat Lopes Pascoal Photography)

(Este relato foi também gentilmente publicado no Blogue "O-V-O" a convite da autora)

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

porque aguardar o corte do cordao....


o parto nos média...

Obrigada CUF por ajudarem tantas pessoas. Quanto ao vosso vídeo comemorativo, gostaria de deixar umas notas... pois o vosso vídeo vai aparecer nos média e imprimir um efeito em quem o vê.

Compreendo que as situações apresentadas no anúncio foram durante muitos anos e são, ainda hoje, frequentes em muitas instituições portuguesas. No entanto, há já uma mudança de paradigma, não só nos desejos das mulheres assistidas mas também em muitos profissionais de saúde pelo país fora. As evidências científicas têm demonstrado consistentemente que há práticas obsoletas e prejudiciais que continuam a ser realizadas diariamente apesar da facilidade em ajustar os procedimentos ao que seria mais benéfico e harmonioso para o bem-estar da mulher e do seu bebé durante o nascimento.

Por isso é crucial divulgar algumas incorrecções para que as pessoas que visualizem o anúncio – que pretende exemplificar o decorrer de um parto normal – especialmente as nossas gerações mais jovens de mulheres, que um dia passarão elas mesmas por esse processo, percebam o que pode mudar no nosso paradigma atual, e que está ainda enraizado na nossa cultura e prática médica.
No anúncio mostra-se a expulsão do bébé no que parece ser um bloco de partos. A maior parte das mulheres pode e deve fazer o seu trabalho de parto e parto no conforto e intimidade do seu quarto de dilatação, onde o pessoal médico pode avaliar o processo periodicamente e a mulher pode manter a sua roupa, os seus acompanhantes e o mínimo de pessoal a observá-la. Só em casos de complicações é que há necessidade de o parto ser no bloco.
A posição em que a mulher é apresentada, litotomia, é na maior parte das vezes desconfortável e contraproducente para a expulsão. A mulher deve poder adotar a posição que sentir ser mais confortável, geralmente posições verticalizantes. Geralmente nestes casos, não é necessária a manipulação ou extração de bebé por parte do profissional, o bebé e a mãe conseguem fazê-lo autonomamente e no seu tempo. Desta forma, a mulher também não necessita geralmente, de ser "dirigida" como se ouve no anúncio. Ela saberá quando e como fazer força...
O bebé não precisa de ser levado para observação: esta pode ser feita com o bebé no colo da mãe se ambos estiverem bem. Procedimentos como a pesagem podem ser adiados para favorecer o contacto pele-com-pele da mãe e bebé, o que evita também a necessidade de colocar gorro, para que a mãe sinta o cheiro do seu bebé e evite o sobreaquecimento. O vérnix não deve ser removido pois é uma barreira protectora térmica e antibacteriana para a pele do bebé.
Os pontos positivos do anúncio foram:
Embora o parto fosse no bloco de partos, onde se encontram 5 profissionais, é possível e aconselhável a presença de pelo menos um acompanhante da mulher, tal como se encontra o marido no anúncio.
O clampeamento e corte do cordão umbilical foi feito depois de todo o sangue ter passado para o bebé (cordão ficou branco) dando-lhe as melhores hipóteses contra uma anemia precoce, melhor oxigenação e aporte das suas células estaminais. O clampeamento precoce pode privar o bebé de até 1/3 do seu volume total de sangue...
Para todas as mulheres que se queiram informar e fundamentar nas suas escolhas de parto. Parto tranquilo, famílias felizes e saudáveis.